quinta-feira, 30 de abril de 2009

Panta Rhei


"Tudo flui e nada fica como é"


O rio que desce o vale
Não é o mesmo
Em que ontem me banhei.
Seu constante movimento
Renovaram suas águas.
As correntes de outrora
Fragmentaram-me o ser.
De sorte que hoje,
Não sou o mesmo
Que era antes.
Prossigo morrendo
A cada minuto que vivo.
Transformo-me velozmente,
Como que em um instante,
Num reflexo de luz.
O processo é ativo.
A marcha é contínua.
Viver é a arte da morte.
A morte uma forma de vida.
O curso é contrário.
Princípio é final.
O fim é início.
Anacronismo girante.
Nada é estável.



Heráclito de Éfeso

535AC a 484AC

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Para Fazer Um Verso


"Para fazer um verso, precisa-se ter visto muitas cidades, homens e coisas. Precisa-se ter experimentado os caminhos de países desconhecidos, despedidas longamente pressentidas, mistérios da infância não esclarecidos, mares e noites de viagens. Não basta mesmo ter recordações: precisa-se saber esquecê-las, precisa-se possuir a grande paciência de esperar até que elas voltem. Pois as próprias recordações não o são ainda. Antes, as recordações devem entrar em nosso sangue, nosso olhar, nosso gesto; quando, então, as recordações se tornam anônimas e não se distinguem do nosso próprio ser, então pode acontecer que, numa hora rara, nasça a primeira palavra dum verso."RMRilke

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sonhos




Na verdade, a grande verdade dos sonhos
é que até as lágrimas que vertemos,
se cristalizam e se eternizam
 nas nossas retinas,
 ali permanecendo, ad infinitum,
incólume a ferrugem do tempo.

Os nossos grande sonhos e desejos,
 às vezes proibidos,
 permanecem para sempre ignotos
 e trancafiados do mundo,
 mantendo-se apenas
 nas profundezas abissais
 do nosso coração,
 em dimensões que correm em paralela
 àquela que complementa
e completa a história que não finda.

Podem nos tirar quase tudo,
menos a nossa alma, o nosso âmago.
Ninguém nos pode tirar:
 as nossas lembranças silentes e adormecidas
 a quem tudo se confia,
a própria vida em uma taça.
Por isso não há quem desfaça
 o que destino marcou...

Perdi os livros que mais gostava,
 os emprestei...
As canções mais doces e ternas que me embalaram,
não sei onde as deixei.
A cachaça guardada em coco ,
 de sabor tão doce ,
não sei onde as enterrei.
As fotos escondidas nos livros ,
que trazia sempre comigo,
por castigo as perdi

A minha amiga mais querida,
um inimigo a levou.
A figueira, sob a qual ficamos tantas vezes,
o tempo a secou
A alamanda amarela , que levavas no cabelo,
a muito murchou

E valeu a pena? Não morremos de pena ,
Apenas de dor ,
consumido como vela que extingue,
ao clarear do dia
Mas à sua luz, juras foram feitas...
Nesses encontros marcados
e guardados à sombra do tempo
Cristalizados e retidos
eternamente nas nossas lembranças.


Portanto não vou matar a minha saudade
 vou revivê-la , em toda a sua plenitude,
cada vez que ali volto...
JATeixeira

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Trottola


Un filosofo si tratteneva sempre dove c’erano bambini a giocare. E quando vedeva un ragazzo con una trottola, si metteva subito in agguato. Non appena la trottola girava, il filosofo la inseguiva per prenderla. Che i bambini facessero chiasso e cercassero di allontanarlo dal loro giocattolo, non gli importava; se riusciva a prendere la trottola, mentre ancora girava, era felice, ma solo un istante, poi la buttava via e se ne andava. Credeva infatti che la conoscenza di ogni inezia, dunque anche, ad esempio, di una trottola che gira, fosse sufficiente per conoscere l’universale. Perciò non si occupava dei grandi problemi; gli pareva antieconomico. Conoscendo realmente la minima inezia, è come conoscere tutto; perciò si occupava soltanto della trottola girante. E ogni qualvolta si facevano i preparativi per farla girare, aveva la speranza che vi sarebbe riuscito, e quando la trottola girava, mentre la rincorreva ansimando, la speranza gli diventava certezza, ma poi, quando si trovava in mano quello stupido pezzo di legno si sentiva male e le grida dei bambini che fino a quel momento non aveva udite e ora invece gli colpivano improvvisamente le orecchie, lo facevano fuggire, sicchè andava barcollando come una trottola sotto una frusta maldestra. Franz Kafka, The top, 1920

O Pião


Um filósofo sempre se distraia onde tinha crianças jogando . E quando via uma criança com um Pião, rapidamente prepara uma emboscada .E quando o Pião girava ,o filósofo o perseguia para pegá-lo .Mesmo que as crianças gritassem e o expulsassem dali,não o incomodava ; o que ele queria era pegar o Pião enquanto esse ainda girava,ele ficava feliz ,momentaneamente ,pois em seguida o jogava fora e ia embora.Acreditava que o conhecimento de cada inépcia ,cada tolice como um Pião que girava ,fosse o suficiente para entender a complexidade dos problemas universais .Por isso não se preocupava com os grandes problemas ;lhe parecia desnecessário. Pois conhecendo,realmente, a menor das tolices era como conhecer todas ; por isso então se ocupava do Pião que girava. E cada vez que eram feito os preparativos para arremessar o Pião,ele tinha a esperança que desta vez teria êxito.E quando o Pião girava ,a esperança se converte em certeza, mas quando tem nas mãos aquele estúpido pedaço de madeira se sentia mal e começa a ouvir a gritaria das crianças ,que até o momento era inaudível,e agora o golpeiam nas orelhas o fazendo fugir, de tal modo cambaleante como um Pião mal arremessado  

Franz Kafka 1920
Traduzido by JATeixeira

domingo, 19 de abril de 2009

Deuses da Chuva


Deuses da Chuva

Quantos deuses existirão nesse universo humano, desde os seus primórdios???
Deus irados que ameaçam com tempestades colossais e raios fulgurantes que faz com que os “pobres diabos” se prostrem, se curvem,orem ;atirem as pedras recolhidas no “tempo” bom ou queimem as palhas”santas” das procissões .E resolve ?? Têm 50% de chance de resolver, quaisquer que sejam as questões. Se forem solucionadas louvam-se os deuses, que foram acalmados com sacrifícios,se não resolveu,é muitos simples,mais sacrifícios serão impostos...Imola-se,joga-se dentro dos vulcões...Ou ,quem sabe um dilúvio.
Aí abrem-se as torneiras .Será que 40 dias e 40 noites serão o suficiente para punir os infratores ?Mas em meio aos infratores terá sempre um bonzinho, que mesmo bonzinho carrega na sua gênese a semente do mal. Pois de que outro modo se propagaram as sementes senão através do vento e de alguns poucos pássaros negros, que as enterram.O deus do vento não é o culpado, afinal ele é um deus; em quem vamos por a culpa???? O oráculo de Delphos que o diga,com suas pitonisas cegas,mas todas bem maquilladas, que viam além das lentes,dos mortais comuns,do tempo: prevendo o futuro,para 2014. Talvez alguma deusa ou eStella de menor grandeza seja a transição,nessa constelação de deuses e semi-deuses que órbita em torno do "Zelite",quero dizer de Zeus :barbudo ,onisciente e onipotente.
Sobra o infortúnio para o pássaro negro que planta a semente que fecunda terra.É ele o culpado.É preciso que se faça alguns sacrifícios .E os deuses nos Gabinetes Climatizados têm horror do cheiro do povo. É preciso sacrificar alguma ovelha, que morre sem lançar nenhum grito.Que horror ! E os deuses sobre as nuvens no seu grande (avião)trovão dão risadas do povo e pedem naturalização na Itália,afinal querem um futuro melhor para os seus...

JAT

17 de Abril de 2009 18:17