Bem,todos os que se dispõe a assistir a alguma palestra,pouco
importa o tema, e se vai com o espírito
aberto a esse fim proposto, sempre irá colher alguma coisa, por menor ou relevante
que seja o assunto ou o conteúdo apresentado,sempre algo vai permanecer e fazer
parte do mosaico que nos compõe e das
relações que mantemos ao longo da jornada ,na vida dessa dimensão de
espaço-tempo.
Por outro lado,mesmo que soubéssemos e entendêssemos a
complexidade do tema:Vida e Morte e sua vasta abrangência ,da busca e em cujos anseios estão adormecidos nas nossas constatações
diárias: que não se revela, a não ser que cavemos dentro de nós mesmos.Por
alguns momentos nem tínhamos reparado ou dado a devida importância e, essas fagulhas, parece
que ela nos tiraram da letargia ,do sono fortuito -desperto, e por si só, passamos a ver que as coisas se revelam , quando o ouvido cauto atenta para
o que ouvimos de outrem na verbalização de
tais conteúdos.
Muitas vezes o que nos frustra é termos esperados mais do
que foi nos dado, e esse lamento fica por conta da expectativa do momento disperso...Onde era preciso se ater a
fenomenologia da vida para transpor as concepções plantadas,dogmatizadas e
armazenadas na nossa compreensão dessa transitoriedade.A vida e a morte são
apenas opostos de si mesmas,Não podemos aceitar uma ou outra ignorando essa obviedade:Perit ut
vivat(perecemos para viver)
Morremos e renascemos todos os dias :na oxigenação que
renova,a célula que se substitui,o fio
de cabelo que cai,nas milhares de pequenas ações invisíveis e visíveis ,do
nosso cotidiano.No momento que passamos a compreender o sentido da morte,a vida
passa a ter mais sentido,passamos a valorizar mais esse interlúdio entre a
chegada e a saída :as cores são suavizadas nesse ocaso , o sabor obtido das
nossas refeições diárias despertam sensações esquecidas,os nossos ouvidos
passam a ouvir as vibrações mais sutis da musicalidade universal, diluída em
cada folha que cai ou no vôo mais leve de um pequeno colibri.Toda a ternura parece
se revelar em cada sorriso,em cada gesto e até as nossas preces têm mais sentido e sublimação.

O medo de morrer,que
aterroriza a muitos,já os torna meio
mortos.Para viver com plenitude a vida é
preciso que entendamos o simbolismo da morte.Se aceitarmos a morte como
inevitável e que somos parte de um ser universal,onde a luz permanece embora a
lâmpada seja apagada.Torna-se mais fácil aceitar a finitude e a renovação,pois
uma forma que finda dá origem a milhares de outras que surgem nesse eterno
oroboros- princípio e fim, enquanto a energia flui e é incorporada a sua origem
As poesias de Augusto Frederico Schmidt são tocantes e podemos ver nessa uma alusão ao eterno recomeço.Morrer é morrer? ou um eterno renascer.?
JATeixeira
A PARTIDA
Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto
lívido.
Quero morrer de noite.
As janelas
abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de
água
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço.
Estarão em
silêncio,
Os olhos
postos em mim.
Quero morrer de noite.
As janelas
abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.
Aos poucos me verei pequenino de
novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de
uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...
Quero morrer de noite —
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de
tudo, para bem longe de tudo.
E quando todos souberem que já não
estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão
absoluta.
Augusto Frederico Schmidt