segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tesouro da Juventude


Fiquei exultante ao ver alguma coisa sobre o TESOURO DA JUVENTUDE . http://www.hfleming.com/tesouro.html
Quanto tempo !
Foi o meu primeiro livro de " cabeceira", por assim dizer.
Ainda nem sabia ler ,mas debruçava–me sobre eles e deslumbrava-me com as gravuras ali impressas
Na casa do meu pai, tínhamos um grande gramophone de móvel ,com uma enorme boca,por onde saía o som ,como se fosse um grande woofer. Na lateral, tinha uma manivela que imprimia a velocidade necessária para fazê-lo funcionar;na parte superior abria-se a tampa do móvel e lá estava o toca disco .Ali ao lado a minha mãe ,sentava-se e contava longas histórias, que ainda hoje povoam a minha imaginação. Quando ela parou de contar esses contos imaginários, talvez eu quisesse ainda continuar no mundo maravilhoso da imaginação e magia e comecei a folhear o “Tesouro da Juventude”,inicalmente vendo ( lendo) os contos de fadas ,depois os livros dos porquês ,as gravuras, Astronomia,Fisiologia, Homens e Mulheres Celebres , Fábulas de Esopo , La Fontaine, e a última página em francês ...tanta coisa !
Hoje, volvendo um olhar sobre eles, me parece que a qualidade e consistência não seja tão científico; acho que não tinha uma atualização a altura ,mas mesmo assim eu ainda gosto dele. Comprei no "sebo" um velho Tesouro da Juventude, onde tesouro é grafado com TH. Gostaria que minhas crianças vissem, olhassem, gostassem como gostei, e ainda gosto.

Tínhamos também uma Enciclopédia Prática Jackson, capa dura, vermelha ,folheei esses também ,muitas vezes. Ajudou-me nos trabalhos de história. Mas não tinha o mesmo encanto que o Tesouro da Juventude. Esse exercia sobre mim, um fascínio. O Jackson,tinha mais textos do que gravuras e isso para um pequeno aprendiz ,era fundamental.

Que época produtiva, como eu lia. Os gregos, como me empolgava lendo Homero : Odisseu. Imaginava-me dentro daquele cavalo, combatendo o raptor de Helena. Hoje penso, que a história realmente só premia os vencedores; tivesse sido o contrário estaríamos lendo agora as crônicas sobre os bravos troianos. Lia as crônicas sobre o rei Minos de Creta e seu filho, aprisionado por suas deformidades num labirinto, até ser abatido por Teseu.

Quanto de Sófocles absorvi ao ler as suas tragédias e ver o sofrimento passional do homem como ele é : por excesso de paixão ou trama do destino. Epicuristas e Estoicos. Pensei em Marco Polo vendo aqueles homens cabeça de Cão. Li os latinos: Marco Arélio, Cícero,Lucrécio,Sêneca. Como detestei Cato o siciliano do "Cathago delenda est" . Prefiro "Carthago dilecta est" . Ver o maior dos heróis e generais do mundo antigo cruzando os Alpes com seus elefantes e afirmando : aut viam inveniam aut faciam. Sofri a influência de italianos: Dante, prefiro lembrar Beatriz do que das portas do inferno. Ariosto e seu Orlando Furioso e o C.COllodi: velho Geppeto e Pinocchio . Como o meu nariz não crescia, disseram que as manchas branca nas minhas unhas era devido as minha mentiras eu as roía, para não me denunciar.

Quando adolescente gostava de ler poesias francesas: La Bonheur de ce Monde ,Chistophe Platin,Paul Verlaine. Também gostei muito de ler o profeta absurdo(A. Camus) onde nos deparamos com o conceito de que o absurdo não está no homem nem no mundo, mais coexistência. Hoje já não comungo com tais ideais adolescentes, onde queremos purificar o mundo com dinamite e entendia INRI como ignea natura renovatur integra .
Em Exupery , experimentei a aventura , equilíbrio e tranqüilidade do Voo Norturno, sob as planices da Patagônia e me imaginei no deserto entre os povos nômades, tuaregues e fortaleci o pensamento de infância de ir para legião estrangeira. Absorvi muito dos pensadores alemães: vi em Nietzche, o proibido, vigor e discernimento .Li tantas vezes o Goethe que dei nome ao meu primeiro filho de Werther, personagem deste, e ao gato que tive :Mesfístofles . Dos portuguêses, gosto de lembrar de MA G.Junqueiro: O Melro, do velho abade e O Fiel, ainda me tocam .Sem contudo esquecer Fernando Pessoa, por quem tenho uma reverência especial .Lembro-me ainda do Conselheiro Acácio(Eça de Queiroz),tão atual na mediocridade dos políticos e burocratas .
Penso nos infortúnios que Igreja Católica causou ao mundo mas lembro dos copistas que salvaram tanto, do que conhecemos hoje. Lembro do farol da ilha de Faros, uma das sete maravilhas ,e do conhecimento perdido com a destruição da biblioteca de Alexandria ,mas fiquei perplexo quando uma criança nomeou as sete maravilhas como os nossos cinco sentidos ,faz sentido !

As crianças de hoje são bombardeadas, diuturnamente, por pesticidas potentes tipo organo- clorado e fosforados da mídia ,presentes na imagens animadas da TV , que matam lento e sem piedade os germes da imaginação. A lavagem cerebral que sofrem causa uma isquemia que os impedem de absorver a cultura universal ou lhes dão uma falsa sensação de libertação precoce, que rejeitam milênios de cultura e passam a contestar, desdenhar ,difamar antes de aprenderem a pensar, se é que ainda aprendem isso.
Foi muito bom ler o texto sobre os Tesouro Juventude me fez relembrar muitas coisas boas enrijecer os músculos para suportar o peso dos anos e manter a mente aberta aos ventos que sopram de todos os confins do saber e experiência humana; e ainda mais ser fortalecido por saber que não estamos sós.




JTeixeira

Um comentário:

Claude Bloc disse...

JAT.

Adorei ler esse texto, porque tudo isso fez parte do meu mundo e do imaginário de nossa geração.
Tua emoção propagou-se e me "contaminou"...

Veja:

De onde me vem esse teu vôo
depois de tantas voltas e asas machucadas?
Eu que estive em vigília, não te vi passar
Nem vi teu afago nas noites de frio
Nem o teu beijo em noites de verão...
Por isso permaneci nas sombras do tempo
Entre o silêncio da noite e a paz da madrugada
E em busca de um ninho
Pousei no porto da saudade.


Abraço,

Claude